Vertente Tecnológica por Carlos Canelas [canelas@portugalmail.com]
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A presente página, elaborada no âmbito da unidade curricular Media Participativos do 1.º ano do Programa Doutoral em Informação e Comunicação em Plataformas Digitais a decorrer no Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro e na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, pretende expor algumas considerações tecnológicas sobre as ferramentas disponibilizadas pela Web 2.0 e acerca das tecnologias móveis utilizadas pelos indivíduos na produção e publicação de conteúdos, quer informativos quer de entretenimento.
Cidadão-Jornalista; Internet; Jornalismo; Tecnologias Móveis; Web 2.0.
Nos anos de 1990, a Internet redefiniu as práticas da actividade jornalística.
Após um período inicial de rejeição ao novo meio de informação e comunicação, os profissionais da informação jornalística integraram nas suas rotinas diárias a troca de mensagens electrónicas (correio electrónico), a pesquisa na Web, a transferência de ficheiros, a comunicação síncrona (chats), entre outros recursos disponibilizados pela Web.
Deste modo, por um lado, a Internet assumiu-se como instrumento privilegiado de comunicação entre jornalistas, de contacto com as fontes de informação e de pesquisa de conteúdos para jornalistas de todos os meios.
Por outro, este novo media, em pouco tempo, consolidou-se enquanto suporte de publicação e difusão de produtos jornalísticos tradicionais (Bastos, 2000).
Apesar de ser um fenómeno relativamente recente, cedo se percebeu que a Internet fornecia um conjunto de funcionalidades de grande importância para a melhoria do trabalho jornalístico (Canavilhas, 2004).
Todavia, neste primeiro período da Internet, estávamos perante a Web 1.0.
No início do século XXI surgiu a Web 2.0.
Paul Anderson (2007) refere que a Web 2.0 é «um conjunto de tecnologias associados aos termos: blog, wiki, podcast, rss, feeds, etc. que facilita uma conexão mais social da Web e onde toda a gente pode adicionar e editar informação».
Este termo foi apresentado por Tim O´Reill (2005), defendendo que a Web 2.0 não tem limites rígidos, mas sim um núcleo gravitacional, na medida em que é encarada como uma plataforma, cujos utilizadores produzem e controlam os próprios conteúdos e que não dependem de software comercial mas de serviços que são acedidos através de Browsers e programas informáticos livres (open source). O lema da Web 2.0 é a partilha, designado por O´Reilly (2005) como sendo uma “arquitectura de participação”, procurando atingir uma inteligência colectiva, ou mesmo, uma memória colectiva.
Na Web 2.0, tudo está sempre a ser reconstruído de uma forma colaborativa, no intuito de atender às necessidades dos utilizadores (Aquino, 2007). Para O´Reilly (2005), a Web 2.0 possui alguns princípios, tais como: rich user experience (riqueza da experiência do utilizador) e trust your users (confie nos seus utilizadores). Em relação ao primeiro princípio, a riqueza da experiência do utilizador, quantos mais indivíduos usarem as ferramentas disponibilizadas pela Web 2.0, mais ela evolui e mais ela se apercebe das necessidades de adaptação. Relativamente ao segundo princípio, diz respeito à importância que é atribuída à participação dos utilizadores da Web para o seu desenvolvimento.
Tim O´Reilly (2005) expõe algumas palavras-chave que descrevem a Web 1.0 e a Web 2.0, apresentando uma comparação evolutiva entre esses dois conceitos:
Web 1.0 versus Web 2.0
Para além de permitir que os indivíduos comentem e colaborem com o conteúdo publicado, a Web 2.0 possibilita também que as próprias pessoas coloquem material próprio e original (Briggs, 2007). Nesta óptica, surge um novo paradigma, o consumidor como produtor de conteúdos (prosumer - provém da junção de producer (produtor) + consumer (consumidor)). Assim, a Web 2.0 disponibiliza diversos recursos, tais como: Blog, Wiki, Poscast, Videocast, Flickr, Messenger, Skype, Del.icio.us, entre outros (Richardson, 2006; Solomon e Schrum 2007).
Posto isto, o jornalismo do século XXI deve ter consciência da importância das ferramentas facultadas pela Web 2.0 para a elaboração do seu trabalho. Numa altura em que o trabalho jornalístico é cada vez mais individualizado, é importante ter a participação e colaboração de outros indivíduos, com vista ao melhoramento do produto final. Através da ferramentas da Web 2.0, o jornalista pode contar com a colaboração do público, visto que este pode interagir e interferir no conteúdo, através de comentários, seja para discutir o assunto, assinalar erros, fazer críticas e até mesmo transmitir informações que complementam as reportagens (Souza, 2008).
Os utilizadores da Web 2.0 já ganharam um espaço próprio na produção de conteúdos, quer de informação quer de entretenimento. O conceito de Crowdsourcing, entendido como o público como fonte de notícias ou conteúdos produzidos por utilizadores, enfatiza o poder do público num projecto específico e demonstra como um grupo de indivíduos comprometidos entre si consegue superar a actuação de um grupo reduzido de profissionais experientes e remunerados, tal como são os jornalistas (Briggs, 2007).
Tal como já foi referido, a Web 2.0 disponibiliza um vasto conjunto de ferramentas que vieram revolucionar o modo como as pessoas consomem, interpretam, produzem e divulgam informação. O utilizador da internet deixa de ser um receptor silencioso para se converter num criador de conteúdos (Foschini e Taddei, 2006).
Essas ferramentas são de fácil utilização, não necessitando de instalação e manutenção constantes, além de permitirem o trabalho cooperativo e colaborativo (Toldo e Gonçalves, 2008).
As ferramentas da Web 2.0 que permitem a edição e publicação de conteúdos, quer informativos quer de entretenimento, disponibilizam espaço para armazenamento de dados; trabalham dentro do princípio da reutilização de conteúdos; oferecem recursos de interactividade, como chats, fóruns de discussões e comentários; possuem opções para a configuração de interface; permitem a inserção de diferentes recursos, como texto, vídeo, imagem e áudio; inclusão de widgets, feed RSS, mashups, serviço de tagging ou folksonomia com o uso de tags para indexação de conteúdo e mecanismos de pesquisa (Toldo e Gonçalves, 2008).
Seguidamente são apresentadas breves definições de algumas ferramentas da Web 2.0 que podem ser utilizadas pelo cidadão enquanto produtor de conteúdos, quer informativos quer de entretenimento:
É um registo cronológico e frequentemente actualizado de opiniões, emoções, factos, imagens ou qualquer outro tipo de conteúdo que o autor ou autores queiram partilhar. (<http://ajuda.sapo.pt/comunicacao/blogs/geral/O_que_um_Blog_.html>)
Uma das grandes vantagens apontadas aos blogues é a possibilidade de publicar gratuitamente informação, centrando-se no conteúdo e não na interface devido à facilidade de edição (Cruz, 2008). Para além de se poder publicar informação em forma de texto, o utilizador pode publicar áudio e imagem (fotografia, ilustrações, vídeos, …).
O site Blogger (disponível em: <www.blogger.com>) permite a qualquer utilizador criar e gerir, de uma forma simples, o seu próprio blog.
É um site no qual qualquer utilizador pode visionar e sobretudo partilhar todo o tipo de vídeos, quer amadores quer profissionais. Criado em Fevereiro de 2005, por Steve Chen, Chad Hurley e Jawed Karim, o Youtube é o líder no sector de vídeos on-line (disponível em: <www.youtube.com>) (Briggs, 2007).
Em Novembro de 2006, o Youtube foi adquirido pelo Google e foi eleito pela revista norte-americana Times como a melhor invenção do ano (Cruz, 2008).
Em Março de 2008, o Youtube apresentou o “YouTube Insight”, que permite aos seus utilizadores ter acesso a estatísticas detalhadas sobre os seus vídeos. Com esta iniciativa, o objectivo é aumentar a qualidade dos vídeos e permitir conhecer a nacionalidade dos utilizadores que visionam cada vídeo e em que altura do dia que o fazem (Cruz, 2008).
Começa a ser frequente, aparecerem peças noticiosas transmitidas nos programas informativos das estações televisivas que tiveram por base vídeos disponibilizados no site YouTube. Um dos mais conhecidos vídeos utilizados pelo Jornalismo Televisivo, que teve implicações sociais, foi, sem dúvida, o vídeo intitulado pelo autor: “Dá-me o meu telemóvel, já!” (ver vídeo em: <http://www.youtube.com/watch?v=hWgYNOYRHrE>). Muitas reportagens (de imprensa escrita, de rádio, de televisão e de Internet) foram feitas sobre este assunto, muitos blogues foram criados e vários utilizadores da Web 2.0 pegaram no mesmo vídeo e editaram-no de forma pessoal [ver: <http://globpt.com/2008/03/31/da-me-o-meu-telemovel-ja/>. Todavia, este vídeo teve o seu grande impacto quando foi emitido nos diversos blocos noticiosos dos diversos operadores de televisão.
É um site que foi apresentado pela empresa Ludicorp em 2004, no qual qualquer utilizador pode armazenar e partilhar imagens, desenhos, ilustrações e fotografias (disponível em: <www.flickr.com>).
Em 2005, este site foi adquirido pelo Yahoo.
O Flickr faz parte do software de rede social, permitindo a organização e classificação das fotografias por meio de categorias (tags), que são definidas pelos próprios utilizadores. De acordo com Auchard (2007, apud Cruz, 2008: 32), o Flickr foi o primeiro serviço a popularizar o conceito de “tagging”, ou seja, palavras-chave que possibilitem a outros utilizadores encontrar outros documentos de forma rápida e eficaz.
Segundo os responsáveis do Flickr, esta aplicação permite:
Em 2007, o Flickr teve uma maior expansão, visto que apresentou um alargamento do serviço a mais sete idiomas, incluindo o Português. Cerca de 55% dos seus utilizadores estão fora dos EUA (Cruz, 2008).
É uma rede social centrada num servidor de microbloging, que dá a possibilidade de enviar e receber actualizações pessoais dentro de um grupo de pessoas, mas limitando os textos em 140 caracteres (disponível em <www.twitter.com>).
Esta sigla possui mais de um significado, isto é, pode significar RDF Site Summary, ou Really Simple Syndication, ou, ainda, Rich Site Summary (<http://www.infowester.com/rss.php>).
O RSS é um recurso desenvolvido em XML que possibilita aos responsáveis por sites e blogues divulgarem notícias ou novidades sobre os próprios. Neste sentido, o link e o resumo da notícia é guardada num ficheiro de extensão .xml, .rss ou .rdf (podendo existir outras extensões). Este ficheiro é geralmente denominado por feed, feed RSS (<http://www.infowester.com/rss.php>). Os utilizadores interessados em obter as notícias actualizadas devem incluir o link do feed do site que pretendem acompanhar através de um programa leitor de RSS, também denominado por agregador. Esse programa informático tem a função de ler o conteúdo dos feeds.
Criado em 2003, o MySpace é mais um serviço de rede social que utiliza as potencialidades da Web para a comunicação online, recorrendo a uma rede interactiva de fotos, blogs e perfis de utilizadores.
Este serviço on-line foi desenvolvido em 2003 por Joshua Schacther, possibilitando aos seus utilizadores adicionar e pesquisar favoritos (bookmarks) sobre qualquer tipo de assunto.
Através deste serviço, o utilizador tem sempre acesso aos seus sites favoritos, uma vez que se trata de uma ferramenta que permite arquivar e catalogar os sites preferidos para que este os possa consultar noutro lugar e adicionar outros sites.
Tal como acontece noutras ferramentas da Web 2.0, no del.icio.us, o conteúdo é organizado em tags.
Podcast é a publicação de conteúdos de áudio na Web, que ficam disponíveis para a serem descarregados para agregadores, como iTunes, ou para outros dispositivos móveis como PDAs, Telemóveis, iPods, entre outros, permitindo desta forma a sua audição em qualquer lugar e em qualquer momento (Sousa e Bessa, 2008).
Recorrendo a servidores de podcast, tais como Podpress, Podomatic ou Gcast, a produção de ficheiros de áudio torna-se cada vez mais acessível ao utilizador comum, sem necessitar elevadas competências técnicas.
Para uma produção de podcast mais exigente, mas ainda numa perspectiva amadora, o utilizador da Web 2.0 pode utilizar um conjunto de ferramentas de gravação e edição de áudio, como o Pod Producer ou o Audacity, na medida em que são softwares livres.
É um método de distribuição de ficheiros de vídeo através da Internet ou através de uma rede de computadores que utiliza as ferramentas desenvolvidas para os podcast.
É uma técnica de transmissão em directo utilizando a Internet por meio da tecnologia streaming para distribuir o sinal de vídeo e do respectivo áudio em fluxo contínuo de informação.
É um software colaborativo que, sendo inventado em 1995 por Ward Cunningham, possibilita aos seus utilizadores a edição colaborativa de documentos (Martins, 2008).
Uma das vantagens da utilização dos Wikis está relacionada com a facilidade com que as páginas são criadas e alteradas e a possibilidade de, colaborativamente, construir conteúdo para a Web.
O termo wiki tornou-se conhecido após o surgimento da Wikipédia. Como nos explica Coutinho e Junior (2007, apud Martins, 2008), «um wiki é um Website para o trabalho colectivo de um grupo de autores. A sua estrutura lógica é muito semelhante à de um Blogue, mas com a funcionalidade acrescida de qualquer visitante poder clicar para modificar, agregar ou suprimir o conteúdo da página, ainda que este tenha sido criado por outros autores». Deste modo, outros utilizadores podem corrigir erros, complementar ideias e inserir novas informações.
Vários termos são utilizados para designar o jornalismo realizado pelo cidadão, tais como: Jornalismo Participativo; Jornalismo Colaborativo; Citizen Journalism; Networked Journalism; Grassroots Journalism; Jornalism Amador; Open Source Journalism; …
Este conceito refere que os conteúdos noticiosos, que podem ser textos, imagens, sons e vídeos, são produzidos por cidadãos sem formação jornalística em colaboração com jornalistas profissionais (Wikipédia, 2009 - <http://pt.wikipedia.org/wiki/Jornalismo_cidad%C3%A3o>).
O jornalismo produzido pelos cidadãos ganhou protagonismo nos últimos anos com o aparecimento e desenvolvimento das ferramentas disponibilizadas pela Web 2.0, com a popularização das câmaras digitais fotográficas e de vídeo e dos telemóveis equipados com câmaras de fotografia e vídeo, além de outras tecnologias da informação e comunicação.
Nos atentados nos EUA (11 de Setembro de 2001), em Madrid (11 de Março de 2004), em Londres (7 de Julho de 2005) e no enforcamento de Saddam Husseim (2006) ficou bem patente as potencialidades das tecnologias móveis no campo jornalístico, através do grande número de fotos e vídeos produzidos pelos cidadãos usando câmaras digitais, quer de fotografia quer de vídeo, e principalmente utilizando telemóveis com capacidade de registar fotos e vídeos.
As tecnologias móveis são constituídas por: PCs portáteis; telemóveis com capacidade de gravação de áudio, fotografia e vídeo e com ou sem ligação à internet; rede sem fio (wireless, bluetooth, WI-FI, GSM, …) PDA; entre outros dispositivos móveis.
Na perspectiva de Anderson (2006, apud Silva, 2007), através das tecnologias móveis e das ferramentas da Web 2.0, existe uma intervenção directa do utilizador-produtor amador na edição e publicação a partir de um sistema Pro-Am (profissional-amador), em que o amador participa no processo de produção nas mesmas condições de um profissional. A referida produção amadora pode ser concebida e difundida sem a intermediação dos meios de comunicação de massa, uma vez que as ferramentas de produção e os suportes de transmissão estão disponíveis no mesmo nível, na medida em que as tecnologias utilizadas são simultaneamente produtoras e difusores de notícias.
Deste modo, com a omnipresença de cidadãos detentores de câmaras digitais fotográficas e de vídeo e dos telemóveis com capacidade de registo de fotografia e vídeo que gravam imagens de teor jornalístico, as organizações noticiosas vêem-se forçadas a utilizar com mais frequência essas imagens produzidas pelos utilizadores-produtores.
Cada vez mais, os media tradicionais de comunicação social, imprensa, rádio e televisão, divulgam conteúdos produzidos pelos cidadãos.
Neste sentido, os meios de comunicação social estão a desenvolver estratégias para aproveitar o material produzido pelos cidadãos-repórteres em circunstâncias especiais em que, provavelmente, um profissional de informação não teve a oportunidade de cobrir.
Não obstante, a qualidade dos conteúdos produzidos pelos utilizadores da Web 2.0 nem sempre é alvo de avaliação, isto é, não passam por um filtro antes de serem difundidos, fazendo com que muito material de baixa qualidade possa ser distribuído para o público e utilizado de forma pouco criteriosa.
O cidadão, como jornalista, não se deve limitar a criticar ou elogiar o trabalho efectuado, mas também apontar erros, apresentar novas versões para os factos e acrescentar informações.
«Os efeitos da participação do cidadão na produção de imagens com valor jornalístico são detectáveis tanto no que se refere à criação e consolidação de circuito alternativos de circulação de informação, quanto no que diz respeito às transformações dos media tradicionais em sua convivência forçada com os novos circuitos» (Palácios e Munhoz, 2007: 57, apud Silva, 2007: 9).
Esta realidade, a do cidadão como produtor de informação jornalística, possui uma relação directa com o aparecimento das tecnologias móveis e das ferramentas colaborativas disponibilizadas pela Web 2.0 (Silva, 2007).
Com as ferramentas da Web 2.0, os utilizadores passaram de consumidores a produtores de conteúdos, concebendo-os e partilhando-os a partir de qualquer lugar e em qualquer momento, desde que possuam um computador com acesso à Internet. Deste modo, os utilizadores da Web 2.0 assumem um papel mais activo, visto que produzem conteúdos, adicionam comentários, partilham ideias e relacionam-se. A comunicação desenvolve-se de forma mais partilhada e colaborativa.
Nos dias que correm, qualquer cidadão arrisca-se a ser o primeiro a recolher informação, uma fotografia, um som ou um vídeo de um determinado acontecimento, uma vez que está munido de todo o material tecnológico (Correia, 2008).
Se qualquer cidadão pode converter-se em jornalista, ou melhor, em produtor de informação jornalística, isso deve-se em muito à evolução tecnológica verificada no campo das tecnologias móveis e na área dos serviços e ferramentas disponibilizadas pela Web 2.0.
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